portal médico

boletim informação

  • 02abril
  • Informativo

GLICOSÚRIA SEM HIPERGLICEMIA

GLICOSÚRIA SEM HIPERGLICEMIA:

 Armadilha no Exame de Urina de Rotina

Nº182 - outubro - 2016

Em indivíduos normais, a glicose sanguínea é filtrada ao nível de glomérulos. Posteriormente, através de um mecanismo de transporte ativo em resposta às necessidades do organismo para manter uma concentração adequada de glicose, é reabsorvida através do túbulo contornado proximal ( 90 % ) e , em menor quantidade, no túbulo reto proximal, alça de Henle e túbulo coletor. Quando o limiar de  reabsorção renal é ultrapassado (entre 160 mg/dL e 180 mg/dL), o excesso de glicose será encontrado na urina. A condição mais comum que encontramos para esse fato é a presença de diabetes mellitus, devido a uma deficiência ou falta da produção do hormônio insulina levando a glicemias elevadas. No entanto, diversas causas podem provocar a presença de glicosúria em indivíduos não portadores de diabetes. Entre as principais causas fisiológicas da presença de glicose na urina podemos observar quando há grande ingestão de carboidratos com ultrapassagem do limiar renal, em crianças com idade inferior a 1 ano, devido à imaturidade renal , e em gestantes saudáveis. Nestas últimas, acontece com mais frequência no último trimestre da gravidez (5% a 35% das mulheres), sendo apontadas como causas uma combinação entre a redução temporária do limiar renal e aumento da taxa de filtração glomerular.

As principais causas patológicas da presença de glicosúria sem hiperglicemia têm como principal mecanismo a ocorrência de defeitos na reabsorção tubular da glicose e pode ocorrer em diversas condições: desordens tubulares renais (síndrome de Fanconi, glicosúria familiar benigna ) , síndrome de Cushing , uso de corticosteroides, infecção grave , hipertireoidismo, doenças hepáticas , pielon e friteaguda , intoxicação por chumbo, uso de diuréticos, doença renal avançada, lesões do sistema nervoso central entre outros. Dentre as tubulopatias, a doença de Fanconi, a mais comum destas condições, caracteriza-se por alterações ao nível de túbulo renal proximal, com a presença de distúrbios de reabsorção de glicose, aminoácidos, fosfato, bicarbonato e potássio, além da presença de proteinúria tubular, alterações na capacidade de concentração e acidificação urinária. A utilização de algumas drogas pelos pacientes, como corticosteroides e diuréticos, pode provocar uma glicosúria sem níveis elevados de glicemia de jejum. As SGLT2, também conhecidas como glifozinas, são uma nova classe de medicamentos recém-lançados no Brasil para o tratamento do diabetes. A sigla faz referência a uma proteína encontrada ao nível renal: cotransportador sódio-glicose tipo 2, responsável pela reabsorção da glicose filtrada. As glifozinas agem bloqueando o funcionamento dessa proteína , provocando o aparecimento de glicosúria com níveis glicêmicos normais. Fatores que interferem na avaliação da presença de glicosúria também devem ser lembrados durante a realização do exame de urina de rotina as possíveis causas laboratoriais: agentes oxidantes , acondicionamento inadequado das fitas reagentes proporcionando exposição do ar, densidade diminuída, entre outros. Fica a critério do laboratório confirmar ou não a presença de glicosúria através de métodos enzimáticos com hexoquinase ou glicose oxidase, que apresentam elevadas sensibilidade e especificidade. Para uma melhor avaliação laboratorial é importante que durante o cadastro tenha sido feito adequadamente a coleta de informações a respeito de uso de medicações, patologias associadas, e que os colegas que realizam irão interpretar o exame tenham conhecimento de todos os fatores que possam influenciar no resultado final.

 Bibliografia: Kaline de Lucena Fonseca M.D. - Medicina Laboratorial SBPC/ML - edição 80-ano7-2016   

< voltar